Na escola e na vida: a desvantagem de ser negro no Brasil

Qualquer comparação relacionada a sucesso escolar ou econômico colocará a maioria das pessoas de cor negra no Brasil em desvantagem. Isso nada tem a ver com a genética ou com a cor. Tem a ver com a história, a economia e a sociedade.

Antes de nascer, e nos primeiros anos de vida, há fatores que promovem e fatores que colocam em risco o desenvolvimento das crianças. Os fatores de risco estão associados à falta de segurança física (abuso, negligência, violência doméstica), instabilidade familiar (relações instáveis, mobilidade residencial, saúde mental, drogas, criminalidade) e às diversas manifestações da pobreza tais como insegurança alimentar, problema habitacional, falta de espaço, desemprego e baixa escolaridade.

Os fatores de risco comprometem o desenvolvimento cognitivo e as chamadas habilidades de controle executivo como atenção, memória e controle emocional. As evidências científicas mostram que a quantidade de fatores de risco a que uma criança é exposta é mais importante do que o tipo de fator. Também mostram que a pobreza está fortemente associada aos demais fatores, e que uma criança exposta a mais de três desses fatores dificilmente sai ilesa.

A maioria das crianças negras nasce nessas condições e estão sujeitas a inúmeros fatores de risco. Para piorar, elas também enfrentam preconceitos na sociedade e na escola, onde frequentemente são vítimas de expectativas mais baixas dos professores. Quase sempre estudam em escolas em que os efeitos dos pares são negativos e que não lhes proporcionam um ambiente com disciplina favorável ao desempenho escolar. Ações afirmativas como as cotas para o ensino superior fazem sentido, mas não arranham a superfície do problema e correm o risco de desviar o foco das discussões.

De tudo que se pode fazer para reverter esse quadro, há três elementos essenciais. Primeiro, a melhor política social é uma política econômica que gere emprego, prosperidade e elimine a pobreza. Segundo, políticas compensatórias poderão ter algum impacto, inclusive na questão racial, se começarem desde cedo, com foco na redução dos fatores de risco e na promoção dos fatores que promovam o desenvolvimento. Terceiro, o preconceito racial precisa ser denunciado, combatido e substituído pela aceitação e promoção da igualdade. E a educação, seja na família ou na escola, tem um papel fundamental nesse sentido.

Todos esses fatores dependem de cada um de nós: dos governantes que escolhemos e das políticas econômicas que eles adotam; das causas em que atuamos ou patrocinamos; e, sobretudo, da nossa atitude e de nossas práticas em relação às pessoas cuja cor da pele difere da nossa.

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